Quatro poemas de Luci Collin (Ruído Manifesto)

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Deveras

 

o poeta finge

e enquanto isso

cigarras estouram

pontes caem

azaleias claudicam

édipos ressonam

vacinas vencem

a bolsa quebra e

o poeta finge

e enquanto isso

vagalhões explodem

o pão adoece

astros desviam-se

manadas inteiras se perdem

a noite range

o vento derruba ninhos e

o poeta finge

e enquanto isso

vozes racham

veias entopem

galeões afundam

medeias abatem crias

turvam-se as corredeiras

o sapato aperta e

o poeta finge

que as mãos cheias de súbitos

não são as suas

 

[A palavra algo, Iluminuras, 2016]

 

*

 

Uma tarde que cai

 

Quando o vemos está sentado no banco da praça

Ela está em casa presa à trama silenciosa

 

 

Na praça pássaros e flores são sinceros

Na janela pássaros são fantasmagóricos

 

 

Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa

Ela enxuga os olhos com a manga

 

 

Ele rosna mas só por dentro

Ela supura mas nunca aos domingos

 

 

Ele lastima porque o pão é azul

Ela suspira e a tarde muda se avelhanta

 

 

Ele pergunta se as janelas são sinceras

Ela pensa em se atirar nalguma água

 

 

São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos

A gangrena e a borra são absolutos

 

 

Quando o vemos está em frente à TV imaterial

Ela está de costas de bruços de borco

 

 

Ele está palitando os dentes à espera

Ela vazia

 

 

Ele está entardecente e flama

Ela boia sobre a água azulíssima

 

 

Ele tosse cospe resmunga lanceia vage

Ela fez as unhas e o bolo simples

 

 

A previsão do tempo anuncia chuva

Ela toca a pedra friíssima

 

 

Ele se ofende

Ela se ofélia

 

 

[Querer falar, 7 Letras, 2014]

 

*

 

Ontivo

 

Nos encontraremos e eu estarei atarefada

e você estará imerecível

e eu estarei cansada para o cafezinho

e você estará exausto para um cinema

e eu estarei amorfa

e você palimpsesto

e eu estarei rendida às evidências mais ocultas

e você descompassado às vivências absolutas

e eu estarei com pressa

e você naquela hora imprevisível

e eu estarei naquela hora portentosa

e você estará naquele momento incrível

e eu estarei naquela manhã chuvosa

e você estará naquela noite audível

e eu retrocederei até auroras

e você avançará aos ocidentes

e eu compreenderei infinitudes

e você desvestirá os contratempos

e eu deslizo pela superfície e vou embora

e você mergulha mar adentro e refloresce

 

 

 [Trato de silêncios, 7 Letras, 2012]

 

 *

 

Alinho

 

É preciso voltar

às rosas mais antigas

e suas exuberâncias

e seus frêmitos de infinito

às palavras surgentes

às vozes prometidas

nos ecos do que amanhece

 

é preciso voltar

aos gatos que compõem a noite

às cálidas cantorias

ao flagrante do gosto

aos votos interrompidos

às garatujas nos muros

às cigarras já sem valia

 

voltar será sempre preciso

girar a chave de formato único

pisar nas tábuas lassas e confessas

ouvir o apelo do oco

a ascese dos líquens no tronco

fazer irromper acenos que

contem não só desfechos.

 

Os silêncios recuperam

a porosidade das rochas

o advento das peças da flor

o insabido da brasa

e a razão à palavra.

 

É preciso acalentar

o momento em que se resolve

a história do espinho

 

e saborear

o estremecimento.

 

 

[Rosa que está, Iluminuras, 2019]